quinta-feira, 7 de março de 2013

A palavra de Lise Meitner sobre o estatuto das mulheres ...



O Estatuto das Mulheres nas Profissões

[…] Poderia falar muito acerca da minha própria experiência, quer do auxílio e apoio que recebi, quer dos preconceitos de que fui alvo. Por exemplo, entre 1910 e 1915 escrevi vários artigos sobre assuntos relacionados com a física para a revista semipopular NaturwissenchaftlicheRundschau. Era meu hábito assinar os artigos apenas com o meu sobrenome. Um dia, o editor da revista recebeu uma carta em que um dos coordenadores da Enciclopédia Brockhaus (uma enciclopédia alemã bastante conceituada) pedia o meu endereço, dado que pretendi a que eu escrevesse um artigo sobre radioactividade para para a dita enciclopédia. Ao responder à carta, o meu editor revelou que eu era mulher. O responsável pela Brockhaus , respondeu, por sua vez, agora bastante indignado, dizendo que “era impensável incluir na sua enciclopédia um artigo escrito por uma mulher!”(escreveu isto depois de ter aparentemente gostado dos meus artigos!). Max Plank, a quem devo tanto pelas suas qualidades humanística e científica, também achava a princípio muito estranho eu querer realizar trabalho científico. Obtivera o meu doutoramento na Universidade de Viena e já publicara vários trabalhos em jornais científicos, mas, ao chegar a Berlim e ao apresentar-me a Planck , desejosa de assistir aos seus seminários , embora não deixasse de ser afável, ele mostrou-se deveras surpreendido. Disse-me então: “Já possui o doutoramento, que mais quer? Quando lhe respondi que queria aprofundar os meus conhecimentos de física, proferiu umas quantas palavras simpáticas sem nunca mais tocar no assunto. Porém, passados cinco anos, Plank ofereceu-me a posição de professor auxiliar no seu Instituto de Física Teórica, integrado na Universidade de Berlim. Isto representou uma inovação total da Prússia de então. Não só me foi permitido , a partir daí trabalhar sob a orientação deste homem extraordinário e cientista eminente, mas também inaugurar assim a minha própria carreira científica. Na realidade foi o passaporte para uma vida de actividade científica junto dos meus colegas masculinos e um e auxílio enorme na minha superação dos preconceitos que dificultavam a vida das mulheres. Inicialmente, o grande químico orgânico Emil Ficsher foi relutante em deixar-me trabalhar no seu laboratório com Otto Hahn. Proibiu-me mesmo de entrar nas salas onde Hahn e outros colegas masculinos realizavam as suas investigações experimentais. Em consequência desta proibição, não pude iniciar os meus estudos de radioquímica durante vários anos. Posteriormente, contudo, Fischer apoiou-me tremendamente: é aele que devo o facto de chegar a dirigir a Secção Físico-Radioactiva do Instituto Kaiser Wilhelm de Química, em Berlim-Dahlem. Foi determinado que o nosso trabalho se realizasse numa arrecadação de carpintaria originalmente destinada a funcionar com carpintaria. (…) As realizações notáveis de cientistas como Marie Curie ou IrèneJoliot-Curie, da escritora Selma Lagerlöf, ou de Florence Nightingale podem sim calar os preconceitos ainda vigentes, mas apenas em casos individuais: o preconceito, na sua forma generalizada ainda persiste. Estes preconceitos alvejam principalmente mulheres em empregos de classe média, e posições cimeiras em particular. Ninguém parece querer, contudo, protestar contra a presença da mulher trabalhadora nas indústrias. Não conheço, porém qualquer caso de uma mulher ocupar uma posição de relevo na indústria pesada. [...]

Lise Meitner, "O estatuto da mulher nas profissões", in Mulheres na Ciência, (Lisboa, Gradiva, 1991) pp.46-48

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