terça-feira, 4 de junho de 2013

A CEGUEIRA DE HOMERO

José de Almada Negreiros
[1893-1970]

A tradição grega representa a Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, “velho e cego, errante de cidade em cidade, cantando os seus versos”.
Hoje, parece sem discussão, depois do notável trabalho de Frederico Augusto Wolff neste sentido, que Homero não existiu em pessoa, ou melhor que a Ilíada e a Odisseia são a recolha dos cantos mais populares dos antigos poetas cantores da primitiva Grécia. Em verdade, encontrada esta solução, parece-nos extra-ordinário que o não tivesse sido antes. Mas o mais profundo ficou por descobrir. E esta descoberta foi feita neste livro que tem por título "Ver".
Uma vez que não seja Homero uma pessoa única (e já Frederico Nietzsche havia tido o grande acerto ao dizer que “questão homérica era um juízo estético e não uma questão histórica”), contudo continua de pé a representação em imagem de Homero na tradição grega: “velho e cego, errante de cidade em cidade, cantando os seus versos”. Além disto ainda acrescenta que “sete cidades da Grécia disputaram o seu nascimento”

Aceitamos, e assim foi dito pela ciência, que Homero não seja uma pessoa única, mas neste caso, porquê “velho e cego”?
O “errante de cidade em cidade, cantando os seus versos” parece referir-se também a um personagem único. Mas quando “sete cidades da Grécia disputam o seu nascimento”, a certeza de tratar-se de um personagem único é evidente.
Recordemos no capítulo anterior que tem por título “Memória e Imaginação”, as seguintes passagens: “As duas faculdades instintivas do homem são a memória e imaginação. Primeiro o homem viu e depois imaginou. Depois de assistir impotente à confusão do Caos, imaginou a sua defesa entre os Elementos”. (“O homem não dispõe só da memória, a qual, por si apenas, é negação; por isso o homem tem segunda faculdade instintiva, gémea da memória, a imaginação. A memória e a imaginação têm a sina de não poderem desacompanhar-se: a imaginação é o cego da memória, e a memória o moço-de-cegos da imaginação. A memória não tem iniciativa; a imaginação tem-na mas é cega de nascença. A memória tem olhos e a cega imaginação tem querer: a Vontade!”)
Estas passagens do capítulo anterior fazem-nos meditar naquelas que a tradição grega nos deixou de Homero. (A cegueira é comum à imaginação e a Homero).
Mas porquê velho? É fácil responder:
É velho porque é o autor da Ilíada e da Odisseia, “os cantos mais populares dos antigos poetas-cantores da primitiva Grécia”. É velho porque todos estes “antigos poetas-cantores da primitiva Grécia” têm todos uma só personagem e um único nome: Homero (Wolff). Estes “cantos mais populares dos antigos poetas-cantores da primitiva Grécia” foram iniciados por Homero desde o primeiro dia da primitiva Grécia. Desde o primeiro dia da Grécia que o poeta-cantor Homero vem “cantando os seus versos”, sempre os mesmos versos que variam segundo os tempos e variam para todos os tempos.
“Errante de cidade em cidade”, todas as cidades da Grécia escutam o mesmo canto feito para todas as cidades da Grécia ao mesmo tempo.
É velho porque é antigo, da primitiva Grécia e ainda vive, e mais do que qualquer outro antigo é o primitivo, e mais do que qualquer primitivo é ele o primeiro grego nascido, e tanto como o primeiro grego nascido é ele o primeiro europeu nascido, e tanto como o primeiro europeu nascido é ele o primeiro homem do mundo, o que-nunca-morre, o imortal, o que vive todos os dias, para sempre, até mesmo depois de ter desaparecido a Grécia Antiga: o homem!
Mas porquê cego?
É cego porque a sua cegueira é a noite obscura dos terrores pânicos do homem.
É cego porque canta uma luz que os da memória nunca viram.
É cego porque a imaginação lhe deu o dom de imitar o que só imaginado se poderá ver.
É cego porque a imaginação deu-lhe a Vontade que cega e as garras do domínio da vida.
É cego porque a Vontade custa o maior preço, e o maior preço na Grécia eram os olhos. Exemplo: Édipo.
É cego, enfim, porque é cego tudo quanto, a bem ou a mal, se mete de permeio entre a vida e o homem.

Extracto da edição fac-simile do caderno
"Mito-Alegoria-Símbolo", editado em 1948 pelo Autor.
Fonte: grupo Digital Source
http://deficienciavisual.com.sapo.pt/index.html

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